15 Novembro 2009

Feira da Ladra - 2

Entrada da feira da ladra. Não se paga. Entrada grátis. Multidão dispersa. Abelhuda, buliçosa. Entrar para quê? Que esperas ver? Só para ver. Quero ver o que há no mundo. O que resta. O que deitaram fora. O que deixou de se apreciar. O que teve que se sacrificar. O que se pensou que pudesse interessar a alguém. Mas são só bugigangas. Se estão ali, aqui, é porque já houve uma escolha. Mas pode ser que haja alguma coisa valiosa. Mas alguma coisa que eu queira. Que queira salvar. Alguma coisa que me fale. Aos meus anseios. Fale a, fale de. Ah...

Susan Sontag in O amante do vulcão

























01 Novembro 2009

Feira da Ladra - 1

Nova Feira Da Ladra

É na Feira da Ladra que eu relembro
uma toalha velha, toda em linho,
que já serviu uma noite de Dezembro,
e agora cheira a Setembro,
como o Outono sabe a vinho.
Não valem muito mais que dois pintores
os quadros das paisagens
que eu já sei,
mas valem, pelos frutos, pelas flores
que em São Vicente das Dores,
fora de mim, eu pintei.

O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Esta Feira da Ladra é dos amantes.

E na Feira da Ladra nos vingamos
dum pouco desse tempo que morreu.
Em cada botão velho que compramos
há sempre uma corja de amos
que em Abril, Abril venceu.
Agora não compramos velharias,
tudo passado é lastro do futuro.
Nascemos para o sol todos os dias,
na nossa Feira da Ladra
já não há ladrões no escuro.

O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Eis a Feira da Ladra dos amantes.

Ary dos Santos















08 Outubro 2009

Lisboa à janela - 1

Janelas de Lisboa

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar !
Com tanta janela aberta
Falta-me a luz e o ar.

António Gedeão



















20 Setembro 2009

Ferreira do Zêzere - Dornes

Experimentar algo como belo significa: experimentá-lo de forma necessariamente equivocada - Nietzsche


















13 Setembro 2009

Um pequeno no passeio em Tomar

A fotografia, que tem tantos usos narcisistas, é também um poderoso instrumento para despersonalizar a nossa relação com o mundo; e os dois usos são complementares. - Susan Sontag






























30 Agosto 2009

Pequenas lembranças de umas férias algarvias - 3

Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.

E se os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.

Ibn 'Ammâr













16 Agosto 2009

Pequenas lembranças de umas férias algarvias - 2 - Gaivotas

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pro mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

Fernando Pessoa















02 Agosto 2009

Pequenas lembranças de umas férias algarvias - 1

Liberdade

Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen









28 Junho 2009

Luzes - Fogo de artifício

Fotografo para descobrir como algo ficará quando fotografado - Garry Winogrand

















14 Junho 2009

Em Cacilhas

Coleccionar fotos é coleccionar o mundo - Susan Sontag